O PESO DE NÃO SER GUGA
Maior
promessa do tênis nos anos 80,
Marcelo Saliola cobra para contar como
fracassou na carreira
Daniela Pinheiro
Em
1988, quando tinha apenas 14 anos, o tenista Marcelo
Saliola quebrou um recorde mundial. Tornou-se o mais
jovem jogador do mundo a figurar no ranking da célebre
ATP – Associação dos Tenistas Profissionais.
A façanha foi parar no Guinness Book. Até
hoje não foi superada. No mesmo ano, Saliola
venceu torneios como o Orange Bowl e o Port Washington
, feitos até então inéditos para
um atleta brasileiro. Com resultados brilhantes e um
talento indiscutível, Saliola era a mais auspiciosa
promessa do tênis brasileiro. Especialistas o
consideravam tão genial quanto o americano Jimmy
Cannors, o número 1 do mundo nos anos 70. Seu
estilo agressivo de jogo era comparado ao de André
Agassi. Seu prestígio era tamanho que a industria
Rainha o contratou como garoto-propaganda de uma linha
de tênis. Mesmo com tudo a favor, tudo deu errado.
Na semana passada, “Saliolinha do Brasil”,
como era chamado, falava para uma tímida platéia
em uma academia de São Paulo. Aos 29 anos, ele
discorria sobre a dura rotina de treinamentos, a insuportável
pressão paterna e a atração por
noitadas e garotas, fatores que o levaram a abandonar
a carreira no auge. “Parei por razões psicológicas
e emocionais. O tênis tinha se tornado uma tortura,
um massacre, a pior coisa da minha vida. Eu quase pirei”,
afirma.
Saliola, hoje um professor particular
de tênis, passou a cobrar para falar de seu fracasso
profissional. Em palestras que duram duas horas, e custam
cerca de 3 000 reais, ele explica – com uma lucidez
impressionante – os episódios que o levaram
a largar tudo. Saliola não se envergonha de revelar,
por exemplo, que teve de passar por três anos
de sessões de psiquiatria para se livrar de traumas
adquiridos na adolescência. Eu era um menino e
rodava o mundo em competições. Era eu
e eu”, lembra. Até hoje ele não
consegue viajar sosinho nem dormir de luz apagada. Mas
nada é tão contundente em seu depoimento
quanto o momento reservado ao pai, morto há dez
anos, a quem chama de maior incentivador e “enterrador”
de sua carreira. “Meu pai era um jogador de basquete
frustrado. Ele transferiu toda aquela insatisfação
para mim. Se eu errasse uma bola, ele me xingava. Se
fechasse um set, ele urrava de felicidade. Era uma tortura
psicológica”, lembra.
A palestra tem vários momentos perturbadores.
É possível sentir certo constrangimento
ao ver Saliola ser comparado a seus amigos o tempo todo..
Por onde vá ele tem de engolir a indefectivel
pergunta: Porque você não virou um Guga”?
Sua resposta aos ouvintes é: “não
estava no meu sangue” Apesar de ter passado dos
6 aos 17 anos nas quadras, ter largado a escola só
para treinar, ele acredita que o fazia por hábito,
e não por vocação. “Se você
não tem o empenho, não vai para a frente.
Para mim era muito fácil, então eu era
levado por osmose”, diz. Enquanto a maioria dos
atletas segue uma vida quase monástica, Saliola
não admitia controle.. “Durante a temporada,
a gente ia dormir às 10 da noite. Ele nunca chegava
antes das 2 da manhã. Era só com a mulherada”,
lembra o amigo Fernando Meligeni. Certa vez, Saliola
quebrou um telefone em sua casa depois que o treinador
não permitiu que ele fosse a um churrasco de
escola, já que estavam a dez dias de um torneio.
“Todo mundo só pensa na parte bela do tênis;
o jogador beijando um cheque de 250 000 dólares.
Mas isso é a cena rara. A cena comum é
uma vida de privações, de momentos solitários
e de total desapego pela família e pelos amigos.
Ele não agüentava isso”, diz o técnico
Marcelo Meyer, que treinou Saliola por oito anos, além
de Cássio Motta e Meligeni.Quem o acompanhou
afirma que Saliola também teria sofrido uma “síndrome
de Romário”. Ele falava: “ Por que
vou treinar tanto se boto a bola onde quero?”
E realmente o fazia”, lembra a psicóloga
esportiva Regina Brandão, que acompanhou a seleção
pentacampeã de futebol e o assistiu nos últimos
dois anos de carreira. A alta confiança o fazia
desprezar treinos e horários. “Ele treinava
transtornado. Havia uma tremenda pressão da família”,
diz ela.
Um dia, a casa caiu. Regina afirma
que, depois de um torneio em Brasília, no qual
derrotou Emilio Sanchez, que era o 12. jogador do mundo,
ele saiu gritando: Se pisar de novo numa quadra de tênis,
eu vomito”.
A pior parte foi contar ao pai. Saliola
saiu de casa e ambos ficaram uma semana sem se falar.
“Foi uma catarse. Eu tinha de romper com tudo”,
diz,. No dia seguinte não tinha o que fazer da
vida. “Eu passava o dia vendo desenho animado
e à noite ia para bares e boates. Foram seis
meses assim”. Os estimados 100 000 dólares
(naquela época, os valores pagos no esporte eram
de outra grandeza)que havia ganho durante a carreira
foram gastos parcimoniosamente nos anos seguintes. “Nem
me lembro com o quê”, afirma. Nesse meio
tempo, foi dar aulas particulares em um grande clube.
Mas manteve o hábito de não jogar.O sucesso
dos amigos ele acompanha a distância. “São
poucos os momentos em que senti uma certa inveja. Eles
venceram porque suportaram todas as pressões.
É isso que faz um atleta completo.Não
basta ter talento, como eu tinha.É talvez mais
importante ter sangue de barata”,diz. Há
dois anos arrendou duas quadras, nas quais orienta cinqüenta
alunos. “Se me dessem 1 milhão de dólares
não voltaria. Ninguém nunca me perguntou
se eu queria jogar tênis na vida.























