O mundo está um caos ( Tom Peters)
O
guru corporativo americano
Diz que o ritmo de mudanças na
política, na economia e no
comportamento confunde e gera
ansiedades – e que a saída é
reinventar as regras
Tania Menai de Nova York
Aos 60 anos, multimilionário, o americano Tom Peters divide com Michael Porter e Peter Drucker o triunvirado dos maiores intelectuais corporativos dos Estados Unidos. Em seu livro recém-publicado, Re-Imagine! – Business Excellence in a Disruptive Age (Re-imagine! – Excelência em Negócios numa Era Turbulenta), com lançamento previsto no Brasil para o ano que vem, Peters diagnostica que o mundo vive um período de turbulência e caos que afeta a vida das pessoas, das empresas e dos governos. Entre as diversas mudanças revolucionárias que vieram para ficar, ele destaca o paradoxo da tomada do poder pelas mulheres na economia dos Estados Unidos e em outros países industrializados.Elas tomam as principais decisões financeiras do mundo moderno e ainda são ignoradas e raramente consultadas pelas empresas sobre seus gostos e desejos”, diz ele. Peters, que recebe mais de 80.000 dólares por palestra (ele faz noventa por ano) falou a VEJA sobre as ansiedades criadas pela velocidade das atuais mudanças comportamentais, políticas e tecnológicas.
Veja
– O senhor escreveu que o mundo atual vive um período
caótico como poucas vezes ocorreu na história.
Como o senhor define esse caos?
Peters – Passamos por um momento
em que nada é previsível. Escolha uma área
qualquer da vida, e o que se encontra é a incerteza.
Seja no que diz respeito à segurança nacional
e à vida das empresas, seja no encaminhamento das
carreiras individuais. Ninguém mais está seguro
de nada. Esse ambiente se encaixa nas definições
técnicas e científicas das teorias sobre o
cão. Hoje em dia, muitas idéias que foram
sólidas como rocha para gerações e
gerações se desmancharam no ar como fumaça.Não
existem mais fórmulas precisas de como conduzir com
segurança a administração de uma empresa.
As regras antigas foram jogadas pela janela. Não
surgiram outras. O que se tem a fazer agora é seguir
adiante e refazê-las à medida que avançamos.
Veja
– Mas isso nem sempre é possível para
a maioria das pessoas...
Peters – É certo que muito
pouco pode ser feito individualmente no que diz respeito
às grandes mudanças provocadas pelo fim da
Guerra Fria e pelo desmantelamento dos dois blocos gigantes
que se contrapunham, o do Oeste e o do Leste. As batalhas
globais agora são de outra natureza. O terrorismo,
antes uma forma rara de conflito, tornou-se presente na
vida de milhões de pessoas. Além disso, as
mudanças extraordinárias na área tecnológica,
aos mesmo tempo que representam um avanço revolucionário,
provocam imensa ansiedade e confusão. Tanto a vida
das empresas quanto a de seus profissionais foram profundamente
afetadas. Globalmente, o foco do poder está atravessando
o Oceano Pacífico em direção à
China e à Índia. Quando o potencial desses
dois países for exercido totalmente vai mudar tudo
de novo no mundo. O crescimento econômico impressionante
dessas nações e sua população
conjunta, que equivale a um terço da humanidade,
são fatores muito fortes.Essas mudanças não
acontecerão do dia para a noite, mas ao longo dos
próximos vinte ou trinta anos suas ondas de choque
se farão sentir.
Veja
– Mas mesmo com todas essas incertezas do mundo as
pessoas ainda voltam para casa todo fim de tarde, sentam-se
com os familiares e a vida segue seu rumo, não?
Peters – Não é mais assim.
Atualmente, em 80% das famílias americanas pai e
mãe trabalham fora. A estabilidade de sentar-se à
mesa de jantar para conversar sobre a vida simplesmente
evaporou. A incerteza política trazida pelo terrorismo,
o fato de não mais sabermos quem são nossos
inimigos, é um fator perturbador mesmo quando estamos
em casa.Os estudiosos usam a expressão “choque
das civilizações” para explicar a contraposição
do mundo islâmico em relação ao mundo
judaico-cristão. Hoje o que se vive no mundo é
uma situação muito mais instável do
que a simples diferença cultural, religiosa ou de
adaptação a novas tecnologias e modelos de
gestão administrativa. O problema agora é
mais profundo e abrangente. É a dificuldade de definir
com clareza quais são as lealdades das pessoas, das
empresas e das instituições. Além de
inseguras, as pessoas sentem-se abandonadas, como se elas
fossem a última preocupação dos governos
e das empresas.
Veja
– O que cada pessoa pode fazer para minorar os efeitos
dessa situação?
Peters – A solução seria cada
um tentar desenvolver um grau de independência tal
que parecesse absurdo às gerações passadas.
Meu conselho é que cada um se considere presidente
da empresa de si próprio. Ou seja, gerencie sua vida
como um líder empresarial que sabe que ambiente pode
mudar para pior a qualquer momento.
“Globalmente,
O foco de poder está
Atravessando o Oceano
Pacífico em direção à
China e à Índia. Quando
Quando o potencial desses
Dois gigantes for exercido
Totalmente vai mudar tudo
de novo no mundo”.
Portanto, mesmo que a pessoa trabalhe em uma companhia de petróleo ou outra empresa de um setor sólido, a melhor atitude é se preparar para mudanças. Não chega a ser um consolo, mas o mundo hoje tem o que chamo de “funcionalidade cruzada”, ou seja, há um incentivo maior ao aumento da honestidade e da transparência nas relações humanas. Entre outras conseqüências disso, a melhor é que hoje em dia vale mais a pena fazer política. Os movimentos têm maior força para demolir as irracionalidades das empresas e do Estado.
Veja
– Isso está relacionado com o fato de que,
depois dos escândalos recentes, quase não existe
mais nos Estados Unidos a figura do “herói
corporativo”, o presidente de companhia onipotente
e iluminado?
Peters – O metabolismo das empresas mudou
por diversas razões. O presidente hoje precisa assimilar
o novo compasso de transformações a sua volta.
Isso o obriga, em primeiro lugar, a dar maior ênfase
a seu aprimoramento pessoal, a sua própria capacidade
criativa. Para os funcionários, isso tem duas explicações.
A primeira é que seus chefes não podem mais
deixa-los em carreiras estagnadas, dedicados a funções
mundanas e repetitivas. A segunda é que esta roda-viva
aumente mais a sensação de que o mundo está
se movendo muito rapidamente e é imperativo não
ficar para trás. Os presidentes de companhias sabem
que sem inovação eles fracassam, e para ser
inovador é preciso ter habilidade para fazer mudanças
rápidas.
Veja
– Em seu novo livro, Re-Imagine!, o senhor diz que
as formas de “organização virtual”
são uma das maiores ameaças do mundo atual
e que o terrorismo se nutre delas. Como funciona essa organização?
Peters – A organização virtual,
principalmente via internet, é resultado da capacidade
de grupos de pessoas se juntarem para determinado fim mesmo
estando fisicamente distantes umas das outras. Isso catapulta
a eficiência de uma forma impensável há
poucos anos. A organização virtual pode ser
usada para namorar, conseguir um parceiro ou para projetar
novos processadores. Mas pode ser usada também para
tramar um atentado terrorista. Na minha opinião,
o atentado de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos
foi o momento em que a organização virtual
ganhou um novo e trágico significado. Ele foi tramado
por mentes atuando em conjunto em diversas partes do mundo.
Foi a demonstração de que a popularização
de poderosas tecnologias pode ter um efeito mais dramático
do que o mais pessimista dos analistas poderia imaginar.
Veja
– Em 1987, o senhor já escrevia sobre a incerteza,
e o título de um de seus livros daquele ano é
Prosperando no Caos. Que diferença existe entre a
situação de agora e a de dezesseis anos atrás?
Peters – Aquele livro foi uma antecipação
aos dias de hoje. Escrevi sobre um mundo onde as coisas
estavam acontecendo numa velocidade muito maior que no passado.
Naquela época não existia a internet e a União
Soviética ainda estava de pé e com saúde.
Eu alertei para o fato de que a velocidade das transformações
estava aumentando. Adverti também que o ritmo se
aceleraria ainda mais no futuro. Acertei em meu diagnóstico?
Sim, mas certamente não poderia saber que as mudanças
seriam ainda mais rápidas.
Veja
– As gerações que viram o surgimento
do automóvel e dos vôos comerciais também
podiam achar que o mundo estava muito veloz para elas, não?
Peters – Há duas hipóteses
completamente diferentes sobre o assunto. Uma é que
nada mudou e o mundo sempre foi acelerado. Falo sobre o
caos e a loucura dos dias de hoje. Mas isso faz mesmo sentido?
Minha mãe tem 94 anos. Isso significa que ela presenciou
a invenção do carro, a proliferação
do uso do telefone, passou por duas guerras mundiais e sofreu
todos os medos e ansiedades da Guerra Fria. Ela viu a chegada
da televisão e agora a da internet. Quem sou eu para
dizer que as coisas estão mais selvagens do que antigamente}?
A hipótese de que todas as gerações
tiveram a sensação de viver tempos caóticos
não pode ser descartada muito facilmente. O outro
lado da moeda dá conta de que existem sólidas
bases científicas na constatação de
que a velocidade das mudanças nos tempos atuais é
muito maior do que em qualquer outro período histórico.
Destruir e criar sempre foi uma lei do capitalismo, mas
hoje a destruição está acelerada e
não é apenas aceita, mas incentivada. Destruir
uma empresa por dentro e recriá-la de modo inteiramente
novo é, em muitos casos, a única saída
para escapar da irrelevância. Esses processos são
dolorosos, implicam acabar com postos de trabalho, exportar
empregos para a Índia, o Paquistão ou para
onde for mais barato mantê-los.
Veja
– Nos séculos XIX e XX, as idéias revolucionárias
de Charles Darwin, Sigmundo Freud e Karl Marx puseram a
vida de pernas para o ar.O senhor concorda que as reviravoltas
atuais são menos impactantes?
Peters – São mais rápidas e
de efeito mais imediato. Talvez possamos argumentar que
o terrorista Osana Bin Laden esteja sendo para os primeiros
anos do século XXI o que Lênin foi para o século
XX. Não sei quem seria o idealizador no caso do terrorismo
de Bin Laden, já que ele distorceu completamente
os ensinamentos do islamismo. Mas, de qualquer forma, é
ele quem está exercendo a teoria e a prática
dos ataques ao Ocidente. Há então também
uma provável analogia entre Marx e Bin Laden. Darwin
talvez tenha hoje nos pesquisadores do caos do instituto
Santa Fé, no novo México, seus iguais na busca
de uma ordem nova em um mundo em franca transformação.
Quanto a Freud, acho que sua teoria do inconsciente e a
psicanálise foram ultrapassadas pelo mundo moderno.
Freud tinha certeza de que a medicina um dia explicaria
como a mente funciona no nível biológico.
Enquanto isso não ocorresse, a psicanálise
seria um bom paliativo. Agora estamos aprendendo, célula
a célula, molécula a molécula, como
a mente funciona.
Veja
– Em 1989, o cientista político Francis Fukuyama
publicou seu famoso artigo ( O fim da História, em
que decretava a vitória final da democracia e da
economia de mercado sobre o comunismo e previa tempos mais
amenos para a humanidade. Como o senhor analisa essa tese
hoje?
Peters – Certamente não chegamos ao
fim da história. O abafamento de todas as demais
ideologias pelo capitalismo não aconteceu da maneira
como Fukuyama previu. Acho que o equivalente do artigo O
fim da história, na minha pequena versão do
mundo dos negócios, ocorreu quando a internet chegou
para valer a um número significativo de empresas
e lares. Isso aconteceu há sete ou oito anos nos
Estados Unidos. Então, foi a nossa vez de errar.
Eu e muitos colegas chegamos a afirmar que existiam razões
para acreditar que os ciclos econômicos tinham acabado,
e finalmente, se inaugurava uma era de prosperidade livre
dos altos e baixos típicos do sistema capitalista.
Essa previsão acabou se revelando uma grande bobagem.
Veja
– Os estilhaços da explosãol da “bolha”
da internet ainda fazem estragos atualmente?
Peters – Não acho que a falência
em massa das empresas de internet tenha sido uma bolha.
A internet mudou tudo, e isso é fato. A bolha foi
um período curtíssimo de especulações
enlouquecidas. Ainda hoje, falando francamente, especula-se
com o mesmo ímpeto, só que os movimentos não
são tão sincronizados nem tão visíveis
quanto os da década passada. O impacto tecnológico
da internet continua sendo muito grande. A ascensão
de megaempresas como Wal-Mart e muitas outras só
foi possível pelos avanços da tecnologia da
informação.
Veja
– A tecnologia da informação pode aplainar
as diferenças e as rivalidades que existem no mundo
atual?
Peters – Existem forças titânicas
ativas no mundo atual, e elas não podem ser previstas,
muito menos controladas. A primeira coloca a Ásia
contra o resto do mundo. A segunda é o terrorismo
contra os Estados organizados. Essas são rivalidades
grandes demais para se dissipar de forma indolor. Mas, se
tomarmos como correta a tese de que a raça humana
não vai se autodestruir, poderemos ser surpreendidos
por inesperados capítulos na história do homem
sobre o planeta. “Fim”























