Treinando funcionários ou mandando embora?

Prof. D. Marco Antonio Gioso


   Noutra edição falamos sobre lócus interno e lócus externo. Abordamos a maneira com que lidamos com conflitos, sendo que a maioria de nós tem lócus externo, isto é, tende a culpar os outros pelos acontecimentos, incluindo sua condição de vida, se é pobre, se tem azar, se é infeliz. O cara que é lócus interno, pelo contrário, tende a ver o mundo mais com sua participação nele, isto é, como eu posso alterar o mundo, e especialmente a mim mesmo, sem achar culpados, pois eles crêem que a responsabilidade pode ter sido deles mesmos. Este têm mais chances de sucesso, muito mais.


   Neste contexto nos deparamos com situações em que o empresário não sabe se manda o funcionário embora, após repetidas situações ruins: chegar atrasado, cometer erros, atender mal a um cliente, esquecer tarefas, errar na contabilidade do dia, entre outras diversas. Não é nada fácil ser empresário! De cada 10 empresas abertas 7 fecham em 5 anos. Somente sobrevivem mais do que 5 anos perto de 30% dos negócios. Se você já está nesta minoria, parabéns. Mas quero ir mais fundo. Você vive ou sobrevive com seu negócio? Está feliz com ele? Ou é uma luta diária conseguir fechar o caixa? Pagar as contas, fornecedores, aluguel, os colaboradores? Se você está nesta situação, saiba que há mais 90% de empresas como a sua. Dos 30% dos sobreviventes, somente 10% destes estão saudáveis financeiramente, e querendo crescer. As outras, embora vivas, sobrevivem de fato, apenas com o pescoço para fora d´agua. Várias são as razões para esta situação crítica. Os livros, artigos e revistas possuem uma gama variadíssima de exemplos, e você sabe bem o que passou ou ainda passa com seu negócio.
Mas há saída. O Sebrae ajuda muito por preços irrisórios nestas situações. Se há uma cosia boa que fez o governo, foi ter criado o Sebrae! Ele de fato funciona mesmo! O CRMV-SP fez uma boa parceria com eles. Aproveite!


   Mandar embora ou manter o seu funcionário? Bem depende de como ele é. Entre 70 a 80% dos colaboradores de uma empresa são de segunda classe. Desculpem o termo, mas classificar dá nisto! Eles são a maioria, acertam na maior parte das vezes, são fieis, mas ao mesmo tempo parecem não dar tudo o que podem. Existem os de terceira classe, que são inseguros, nada fieis, muito desconfiados, e muito locus externo, além de influenciarem negativamente o grupo todo, e em geral fazem corpo mole sem o chefe por perto. Não vou perder tempo com estes: eles devem ser extirpados da sua empresa. Eles são corvos, como dize o mestre Marins. Elimine-os da sua vida, não apenas da sua empresa! Felizmente existem os de primeira classe, que são menos de 10% deles. São leais, vestem a camisa, e altamente responsáveis, participativos. Trabalham como se a firma fosse deles. São chamados de puxa-sacos pelos de terceira classe, e são invejados pelos de segunda.


   O que fazer com estes tipos todos? Em primeiro lugar, detectar quem é qual tipo. Seja uma empresa de 2 funcionários, seja uma de 100. Se você não tem preparo para isto, existem testes, consultores. Vale a pena, aliás, em muitos casos, vale a sobrevivência de seu negócio. A maioria que passou por consultorias nas clínicas e petshops dizem: não sei como sobrevivi sem saber disto antes, e ter tomado esta atitude que sua equipe indicou !


   Após detectar quem é quem somente existe uma saída: treinar, treinar e treinar. Três vezes porque todos, qualquer funcionário, independente do escalão que ocupa, inclusive o dono, deve ser treinado 3 vezes ao ano, no mínimo, isto é: a cada 4 meses um treinamento, pelo resto da vida da empresa! Sai caro? De jeito nenhum, a maior dica é: use o Sebrae, se acha que contratar uma consultoria fica cara. Perder um funcionário, ser lesado nas finanças sem nem saber por ter um corvo na empresa é muito, mas muitíssimo mais caro do que contratar uma consultoria. Fale com quem contratou uma, e saberá.


   Mas treinar em que? Em quase tudo. Basicamente em 3 áreas: técnica (a competência intrínseca, isto é, saber operar, diagnosticar, tratar, se for um médico veterinário, ou saber vendas, no caso de vendedores), atendimento ao cliente e a terceira, gestão e administração.


   Qualquer empresa deve ter este tripé em mente, durante todo o ano, e fazer um planejamento para 3 anos nos 3 quesitos acima. Mesclar a cada 3 ou 4 meses uma das áreas de treinamentos. Na área de medicina veterinária, a mais fácil é a técnica, pois existem congressos, cursos palestras durante o ano todo! A Anclivepa-SP hoje tem 13 de especialização, bem como Qualittas, E-Qualis, os de faculdades, entre outras associações de classe. Atualizar-se neste quesito é o básico, embora lamentavelmente existem os que nunca o fazem ou raramente. Depois não entendem porque seu negócio faliu quando deveria estar ao contrário “bombando”, como se diz hoje. Ele teve lócus externo a vida toda e ainda não acordou!


   As outras duas áreas devem ser tão ou mais executadas quanto a técnica, pois nela os profissionais raramente tiveram preparo durante a faculdade! Ou seja, ele deve treinar-se a si próprio em atender bem ao cliente. Mas a pessoa locus externo acredita que já sabe atender muito bem, afinal, tem o negócio há 10, 15, 20 anos., Oxalá ele esteja certo, se pertencer a 5 ou 10% dos negócios de sucesso por aí, que têm excelência em atendimento ao cliente, pois 90% estão derrapando ou apenas sobrevivendo. Se acha que está bom, será que você não tem potencial para ganhar o dobro, o triplo? Não vou discutir o nível de satisfação do dono e funcionários neste momento, mas vamos abordar o empresário que acredita estar neste conflito: mandar embora ou não.


   A decisão para despedir o empregado passa essencialmente na presença ou não de seu treinamento. Acreditar que suas referências são suficientes, ou o bom senso ou ainda aquela conversinha que você teve com ele logo na primeira semana é entregar o futuro da empresa a Deus. Este último a propósito quer te ajudar, desde que você escute aquele chamado que ele fez quando você leu um artigo e não usou as técnicas, quando você fez uma palestra e não acreditou no que o palestrante sugeriu, ou quando você disse que esta coisa de marketing, ou consultoria é jogar dinheiro fora.


   Como estudamos o assunto há anos, sabemos que 95% das clínicas veterinárias e petshops não treinam seus funcionários. Então fica fácil dar a resposta quando se vai demitir ou não um empregado. A resposta é simples: como você não treinou, nunca ou raramente, mandar embora é assumir outro empregado que dará o mesmo problema, porque ele também não foi nem será treinado. Simples assim. O micro-empresário reza para ter um funcionário bom: “ agora vai dar certo, este parece ser bom”! Isto é agir com empirismo. Você não pode se dar ao luxo hoje em dia de confiar na sorte.


   Primeira lição: contrate bem e de forma profissional. Sei que também esta área é falha, não existem empresas em número suficiente que faz banco de colaboradores para secretárias, banho e tosa, veterinários e demais colaboradores ao setor pet. Ainda! Mas existem algumas, nossa equipe tem soluções que podem ajudar e muito.


   Os funcionários de segunda classe devem ser treinados para se tornar primeira. Se após um ano de bons treinamento (eu escrevi “bons”!), não houve melhora: demita-o! Assim mesmo, rapidinho! Ele foi avisado direta e indiretamente sobre isto nos treinamentos durante o ano todo. Os de primeira devem continuar neste nível. Como? Treinando.


   Estes conceitos todos estão no livro do James Hunter, chamado O Monge e o Executivo. Princípios de liderança servidora; aconselho-o a todos que querem ter uma vida mais feliz nos negócios, desde que use de fato os conceitos. O problema é que a maioria não acredita que os conselhos dele são válidos ou tem a ver com eles! Qual a razão? Eles pertencem a maiorias das pessoas que têm lócus externo! Precisam de ajuda, na verdade. Desculpem a comparação, mas venho percebendo que ela se adapta analogamente aos empresários lócus externo: estes são como alcoólatras ou viciados de verdade. Eles não entendem ou acreditam que são verdadeiramente alcoólatras ou viciados em drogas. Somente conseguem perceber quando estão quase morrendo, o que pode ser tarde mais. Nos negócio idem, ele faliu! Como dizia o escritor Elbert Hubbard: “ a receita para perpetuar a ignorância é permanecer satisfeito com as suas opiniões e contente com seus conhecimentos” . Se você acha que a analogia com os viciados nada tem a ver com negócios, convido-o a analisar mais o assunto, e enxergar seu negócio de fora! Perguntar a outros, de verdade, e não apenas para amenizar sua consciência, ou para inglês ver. Tenha um diagnóstico fiel da sua situação! Se você acha que não tem tempo para isto, é como “andar de bicicleta, ou seja, se parar de pedalar cai”, de fato sua situação é crítica. Você mais do que ninguém, precisa de ajuda e urgente! Não deixe para 2011!


   Em resumo, se você decidiu demitir um funcionário o que você fará de diferente para que o seguinte não seja demitido também? Sorte? Boa indicação? Lamento, a ciência diz que a chance de dar certo é menor que 1%. Então contrate 100 deles, 1 dará certo! Ou não arrisque e contrate-o de forma profissional.


Marco Antonio Gioso
Professor da FMVZ-USP
Vice-presidente da ABOV
www.gioso.com.br